ARTIGOS

Publicado em 23/06/2020

Mobilidade sustentável e consciente
Desafios e perspectivas para a melhoria da frota circulante de automóveis no Brasil

Partimos da quarta posição em 2014 para a oitava em 2016 na comercialização de veículos. Impeachment, pandemia e dúvidas por vir impactam na tomada de decisão e previsibilidade, principalmente no segmento de veículos na faixa de sessenta mil reais, enquanto as versões SUVs continuam a ditar as regras nas vendas para os próximos anos.

Mas, esta lacuna de dois anos de vendas reprimidas abre oportunidade nos cuidados e prolongamento da vida útil dos veículos em circulação. Do mesmo modo que as vendas caíram fortemente até 2016, deixaram de ser comercializados milhões de veículos, os mais antigos tomaram esta posição.

Em consequência, nossa frota média em circulação supera os dez anos de uso e demandará medidas preventivas em veículos que, em tese, se não houvesse a queda nas vendas, não circulariam nos grandes centros, passando dos cem mil quilômetros rodados.

A boa notícia é que, há anos, os veículos estão preparados para percorrer as quilometragens altas, pois naturalmente são migrados para as cidades interioranas com baixo poder aquisitivo. A oportunidade está aí: se deixarmos do jeito em que está, as manutenções ocorrerão, grande parte quando os veículos param, de forma corretiva e raramente com característica detectiva e preventiva.

O ponto chave é que se não há medidas legais, educacionais e punitivas, dificilmente as manutenções deixarão de ser corretivas, fomentando os serviços de resgate das seguradoras e o trabalho de oficinas paralelas, muitas vezes de baixa qualificação.

Os frutos da inspeção veicular

Estudos mostram que durante o período de inspeção ambiental veicular, na cidade de São Paulo, foram colhidos muitos frutos positivos no conceito de manutenção adequada dos veículos por meio de upgrade no profissionalismo das oficinas mecânicas. Os técnicos passaram por uma atualização dos controles na emissão de poluentes e, em contrapartida, aumentaram as receitas tanto nos componentes de controles ambientais como nos itens de segurança, principalmente nos sistemas de suspensão, freios e direção.

No ano de 2012, na cidade em que a inspeção ambiental veicular estava em andamento, foram constatados três pontos interessantes: primeiro, os postos de abastecimento de combustíveis começaram a deixar de ter a mancha característica de óleo no piso em frente às bombas; segundo, algumas seguradoras começaram a reduzir a frota de caminhões plataformas devido à queda de serviços e; terceiro, foi diagnosticado que apenas 42% da frota cadastrada na cidade fazia a inspeção ambiental e, portanto, pode-se afirmar que mantinham os veículos regularizados, pois a inspeção estava condicionada ao licenciamento do bem.

Além disso, em 2013, foi publicado um outro estudo que comparava os dados de emissão de poluentes do mesmo veículo, inicialmente reprovado e que depois recebeu aprovação na inspeção. Foi constatado que o montante de redução da emissão de gases poluentes se equiparou à retirada de 1,4 milhão de veículos equivalentes no período, sem contar nos imensos impactos na redução de acidentes, melhoria da mobilidade e do ar e, principalmente, redução do número de mortes. 

As políticas de inspeções veiculares

Parcerias público-privadas são fundamentais para sustentar um plano de inspeção, mas não necessariamente nos moldes da década de 2010. Em 2015, com o escândalo conhecido como Dieselgate, nos Estados Unidos, surgiram novas oportunidades para se realizar a inspeção ambiental veicular sem a necessidade de postos de inspeção como se tinha no país, o que é completamente viável hoje devido à evolução de equipamentos e de sistemas digitais de dados.

Atualizações nas regulamentações e um programa de incentivos fiscais para a comercialização de componentes automotivos ligados aos controles ambientais e de segurança de veículos de faixa etária alta alavancaria o comércio de componentes essenciais de valor, como catalizadores (que teriam valor residual de materiais nobres recuperado),  aumentariam capacidades técnicas dos profissionais de reparação e melhorariam a qualidade da frota não alcançada por atualizações tecnológicas, reduzindo significativamente a quebra dos automóveis nas vias e emissões de poluentes.

Políticas públicas voltadas à fiscalização dos veículos circulantes são dever do estado e necessitam ser implementadas a nível federal. São milhões de veículos que podem não ter sido baixados no DETRAN ou rodam sem os deveres legais de licenciamento. Sugestões como anistia de dívida pública para veículos com mais de cinco anos sem licenciamento e, em contrapartida, desconto no IPVA poderiam ser uma alternativa para “passar a régua” em um problema histórico no Brasil e implementado na grande maioria dos mercados automobilísticos do mundo. Dessa forma, seriam eliminadas as desculpas crônicas de que a inspeção da frota penalizaria os mais pobres e, portanto, impopulares não foram até hoje regulamentados.

A inspeção veicular, por consequência, gerará no Brasil uma nova indústria de alto valor agregado em todo o mundo: a reciclagem de veículos

Luiz Vicente de Mello Filho

 

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