Da produção integral à montagem de conjuntos CKD e SKD, impactos fiscais e conteúdo local
A indústria automotiva passou por transformações profundas ao longo das últimas décadas. Se antes as montadoras produziam praticamente todos os componentes e montavam o veículo do início ao fim em suas fábricas, hoje prevalece um cenário de eficiência e globalização das cadeias produtivas. Uma das principais mudanças na fabricação de automóveis foi a adoção dos sistemas CKD (Completely Knocked Down) e SKD (Semi Knocked Down), que permitem a montagem local a partir de kits de peças fornecidos por terceiros, muitas vezes importados de países como a China.
Manufatura Tradicional: o Modelo Vertical
Historicamente, as grandes montadoras mantinham fábricas capazes de produzir desde motores, câmbios e eixos até componentes eletrônicos e acabamentos internos. Esse modelo verticalizado garantia controle total sobre o processo produtivo, mas exigia altos investimentos em infraestrutura, logística e mão de obra. Com o tempo, evoluiu-se para os condomínios industriais, onde grandes sistemistas reuniam subconjuntos para entrega direta à linha final. Exemplos incluem o “clip” dianteiro, composto por grade, faróis, lanternas, radiador e sua estrutura, ou as portas já montadas com mecanismos de vidro e acabamentos.
CKD e SKD: Eficiência e Globalização
Com a globalização e o fortalecimento de fornecedores internacionais, tornou-se viável importar conjuntos de peças para fabricação de automóveis e montagem local.
- CKD: o veículo chega totalmente desmontado, com todas as peças separadas.
- SKD: o veículo vem parcialmente montado, exigindo menos etapas locais.
Esses modelos oferecem vantagens como redução de investimentos, menor tempo de chegada ao mercado e acesso a tecnologias avançadas, ainda que com custos logísticos mais altos. A China consolidou-se como principal fornecedora mundial de kits CKD e SKD, sobretudo para veículos eletrificados, graças à escala e competitividade.
Vantagens Fiscais e Conteúdo Local
A importação de conjuntos CKD e SKD conta momentaneamente com benefícios fiscais, como a quota de US$ 463 milhões autorizada pelo governo brasileiro para importação de kits de veículos eletrificados sem imposto até janeiro de 2026. Além disso, até janeiro de 2027 não será exigido o conteúdo local mínimo de 55%, calculado a partir dos custos de produção, impostos, componentes nacionais e mark-up. Isso permite desenvolver gradualmente a cadeia de fornecedores locais, gerar empregos e acelerar a adoção de tecnologias limpas.
O uso de kits CKD/SKD ajuda as montadoras a atingirem o índice de 55% mesmo sem produzir integralmente no país, pois o valor agregado durante a montagem e a integração de sistemas locais contribuem para o percentual exigido. Dessa forma, conciliam eficiência produtiva com conformidade regulatória e competitividade no mercado nacional.
Essa mudança estratégica levou montadoras tradicionalmente verticalizadas no Brasil a firmar parcerias com fabricantes chineses e iniciar a fabricação de veículos a partir de kits, reduzindo investimentos em engenharia e manufatura e acelerando a oferta de novos produtos.
Riscos e Desafios Atuais
Apesar das vantagens oferecidas pelos modelos CKD e SKD, há riscos importantes que precisam ser considerados para o equilíbrio do setor automotivo no Brasil. Um deles é a união estratégica entre montadoras locais e fabricantes chineses, que muitas vezes se configura como uma estratégia de momento para controlar a entrada direta das marcas chinesas no país.
Além disso, observa-se o avanço de grupos ligados à mobilidade que buscam concessões oportunistas para importar veículos chineses ainda não preparados para as regulações brasileiras. O risco é que esses grupos também não estejam estruturalmente aptos a gerir operações complexas sem o suporte local da montadora, o que pode causar desorganização no mercado e impactos relevantes nos preços.
Porém, o risco mais severo é a pressão sobre a cadeia de autopeças nacional. A entrada acelerada e desordenada de veículos vindos de novas montadoras pode reduzir a demanda por fornecedores locais, comprometendo empregos, competitividade e a sustentabilidade de toda a cadeia de valor.
Conclusão
A evolução da fabricação de automóveis reflete a busca por eficiência, flexibilidade e integração global. A transição do modelo vertical para CKD/SKD representa um movimento estratégico que permite às montadoras reduzirem custos, aproveitar benefícios fiscais e atender rapidamente às demandas de mercado. Ao mesmo tempo, pode estimular o desenvolvimento da cadeia local e viabiliza a eletrificação veicular, alcançando índices de conteúdo nacional mesmo sem produção completa no país.
Entretanto, é preciso ressaltar que esse processo traz riscos adicionais. A entrada de montadoras chinesas, seja por meio de parcerias ou concessões, pode gerar desorganização competitiva, pressionar a indústria de autopeças e impactar negativamente a estrutura de preços no mercado. Assim, a evolução das operações deve ser acompanhada por políticas regulatórias e estratégias empresariais que preservem a competitividade, a inovação e a sustentabilidade do setor automotivo brasileiro.
A Bright Consulting é uma consultoria automotiva especializada com sede em Campinas (SP), criada em 2014, e tem como missão oferecer um portfólio de serviços de inteligência competitiva orientado para minimizar os riscos relacionados ao processo decisório de seus clientes. Conta com especialistas reconhecidos nos mercados nacional e internacional, que avaliam as grandes transformações do mercado e da indústria, os impactos da evolução tecnológica nos veículos e contribuem na elaboração de projeções mais assertivas de sustentação às decisões das empresas.