Argentina acelera a eletrificação com incentivo fiscal e transforma seu mercado automotivo

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A Argentina vem demonstrando que incentivos tributários bem direcionados podem alterar rapidamente a dinâmica de um mercado automotivo. Pouco mais de um ano após a publicação do Decreto 49/2025, o país registra um crescimento sem precedentes nas vendas de veículos eletrificados, impulsionado principalmente pela chegada de novos fabricantes chineses e pela ampliação da oferta de modelos com preços mais competitivos.

O que estabelece o Decreto 49/2025

Publicado em janeiro de 2025 pelo governo Javier Milei, o Decreto 49/2025 criou um regime temporário para estimular a introdução de veículos de novas tecnologias no mercado argentino. A principal medida foi a redução do Direito de Importação Extrazona de 35% para 0% para veículos eletrificados com valor FOB de até US$ 16 mil, abrangendo automóveis importados nas modalidades CBU, SKD e CKD. O benefício possui vigência de cinco anos e está limitado a 50 mil veículos por ano, cabendo à Secretaria de Indústria e Comércio distribuir as cotas entre os importadores.

Posteriormente, o governo argentino aperfeiçoou o regime por meio de regulamentações complementares, ampliando a definição das tecnologias contempladas, permitindo o aproveitamento de cotas não utilizadas em anos anteriores e mantendo o objetivo de ampliar rapidamente a oferta de veículos eletrificados a preços mais competitivos. O próprio governo informou que a elevada procura levou ao rápido esgotamento dos contingentes disponibilizados, indicando forte aceitação do programa pelo mercado.

Mercado responde com crescimento recorde

Os resultados do primeiro semestre de 2026 mostram que a política coincidiu com uma profunda transformação do mercado argentino de veículos eletrificados.

Foram comercializados 42.105 veículos eletrificados entre janeiro e junho de 2026, um crescimento de aproximadamente 338% em relação ao mesmo período de 2025. Os veículos 100% elétricos apresentaram a expansão mais expressiva, com crescimento próximo de 880%, enquanto os híbridos avançaram cerca de 315%.

Com isso, os eletrificados passaram a representar aproximadamente 14% do mercado argentino de automóveis e comerciais leves, percentual que chegou a cerca de 16% apenas no mês de junho, evidenciando uma aceleração consistente da eletrificação da frota.

Embora parte desse crescimento também reflita a recuperação do mercado argentino e a entrada de novos produtos, é difícil dissociar essa evolução da política de incentivo criada pelo Decreto 49/2025. Ao eliminar a tarifa de importação para veículos enquadrados no programa, o governo reduziu significativamente o custo de entrada de novas marcas, ampliou a concorrência e acelerou a chegada de fabricantes chineses ao país.

O novo equilíbrio competitivo

A mudança também pode ser observada na composição das vendas por fabricante. Enquanto até 2025 o mercado era fortemente concentrado em poucas marcas tradicionais, o primeiro semestre de 2026 mostra uma distribuição muito mais diversificada, com forte crescimento dos fabricantes chineses.

tabela texto argentina

Os números evidenciam duas tendências importantes. A primeira é a rápida consolidação das marcas chinesas, especialmente a BYD, que assumiu a liderança absoluta entre os veículos elétricos. A segunda é que fabricantes tradicionais, como a Toyota, continuaram crescendo em volume, mas passaram a dividir espaço com uma concorrência muito mais intensa, reduzindo significativamente sua participação relativa.

Um caminho diferente do Brasil

A estratégia argentina contrasta com a política industrial brasileira. Enquanto o Brasil, por meio do programa MOVER, busca estimular investimentos produtivos e elevar gradualmente o conteúdo local da indústria automotiva, a Argentina optou por acelerar a adoção dos veículos eletrificados utilizando uma abertura comercial seletiva e temporária.

Os resultados observados no primeiro semestre de 2026 sugerem que essa política foi capaz de aumentar rapidamente a oferta, ampliar a competição e acelerar a penetração dos eletrificados. Ao mesmo tempo, levanta um importante debate para toda a indústria automotiva do Mercosul: até que ponto a competitividade futura dependerá da produção local e até que ponto será influenciada por políticas de abertura capazes de acelerar a entrada de novos concorrentes.

Para montadoras, concessionárias e fornecedores de autopeças, acompanhar essa transformação tornou-se essencial. O mercado argentino pode estar antecipando movimentos competitivos que, em maior ou menor intensidade, também poderão influenciar o mercado brasileiro nos próximos anos.

ASSINATURA CASSIO 2024
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