Durante os primeiros anos da eletrificação no Brasil, havia praticamente um consenso no mercado de usados: veículos elétricos e híbridos desvalorizariam mais rapidamente que os modelos a combustão.
Essa percepção era sustentada por diversas incertezas. Quanto tempo durariam as baterias? Qual seria seu custo de reposição? A infraestrutura de recarga evoluiria na velocidade necessária? O avanço tecnológico tornaria rapidamente os veículos obsoletos? E, principalmente, haveria compradores suficientes para esses modelos no mercado de segunda mão?
Essas dúvidas acabavam sendo incorporadas ao valor residual dos veículos, tornando os eletrificados, durante muitos anos, um investimento percebido como de maior risco.
Mas esse cenário começa a mudar.
Levantamento realizado pela Bright Consulting, comparando veículos zero-quilômetro vendidos em julho de 2025 com seus preços atuais no mercado de usados, considerando valores deflacionados, mostra que o mercado já não trata todos os eletrificados da mesma forma.
A tabela revela uma mudança bastante interessante. O destaque positivo está justamente nos veículos elétricos de entrada. Enquanto os automóveis a combustão de até R$ 170 mil perderam, em média, 13,4% de seu valor real, os elétricos dessa faixa apresentaram desvalorização de apenas 7,9%, praticamente metade da observada nos veículos convencionais.
Esse resultado indica que parte das incertezas que cercavam a tecnologia vem sendo superada. A confiança dos consumidores aumentou, a infraestrutura de recarga evoluiu, as garantias das baterias se tornaram mais robustas e o custo total de propriedade (TCO) passou a ser mais bem compreendido pelo mercado. Além disso, a oferta de elétricos usados ainda permanece relativamente limitada, ajudando a sustentar seus preços de revenda.
O cenário muda nas faixas superiores de preço.
Entre R$ 250 mil e R$ 350 mil, os híbridos plug-in (PHEVs) registram a maior desvalorização do estudo, atingindo 22,2%, enquanto os elétricos chegam a 20,5%. Já acima de R$ 350 mil, os BEVs apresentam perda de 21,2%, refletindo um comportamento típico do segmento premium.
Essa dinâmica é consequência da velocidade com que esse mercado evolui. Os veículos de maior valor agregado sofrem diretamente os efeitos da renovação tecnológica, do lançamento de novas gerações com autonomias maiores e sistemas eletrônicos mais sofisticados, além das sucessivas reduções de preços promovidas pelas próprias montadoras, especialmente pelas marcas chinesas. Quando um veículo novo passa a oferecer mais tecnologia por um preço semelhante — ou até inferior — ao praticado anteriormente, a pressão sobre os preços dos usados torna-se inevitável.
Outro aspecto relevante é o crescimento da concorrência. A chegada de um número crescente de fabricantes chineses ampliou significativamente a oferta de veículos eletrificados novos em praticamente todas as faixas de preço. Esse movimento beneficia o consumidor, mas torna o mercado secundário mais seletivo, diferenciando claramente os modelos que conseguem preservar valor daqueles que sofrem maior pressão competitiva.
A principal conclusão do estudo é que o mercado brasileiro de usados entrou em uma nova etapa de maturidade. Os eletrificados deixaram de ser avaliados como um grupo homogêneo. Hoje, o comportamento do valor residual depende cada vez mais do posicionamento do produto, da faixa de preço, da velocidade de atualização tecnológica e da estratégia comercial de cada fabricante.
Mais do que acompanhar a eletrificação da frota, consumidores, locadoras, financeiras e montadoras precisarão acompanhar também a evolução do valor residual dos diferentes modelos. Afinal, em um mercado cada vez mais competitivo, preservar valor de revenda tornou-se um dos principais atributos de um automóvel — independentemente da tecnologia que o move.