Gasolina E32: os impactos nas motos de baixa cilindrada

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Gasolina E32: o que a nova mistura pode representar para as motocicletas de baixa cilindrada carburadas e injetadas de malha aberta

A entrada em vigor da gasolina-C com 32% de etanol anidro (E32), cuja legislação admite variação entre 31% e 33%, representa uma das mudanças mais relevantes na composição dos combustíveis brasileiros dos últimos anos. A medida busca ampliar o uso de biocombustíveis, reduzir emissões de gases de efeito estufa e diminuir a dependência de combustíveis fósseis.

Sob a ótica da engenharia da mobilidade, entretanto, surge uma questão importante: quais poderão ser os efeitos dessa nova composição sobre a enorme frota de motocicletas carburadas e equipadas com injeção eletrônica de malha aberta, ainda amplamente utilizada no Brasil?

Enquanto motores com injeção eletrônica de malha fechada utilizam sonda lambda e gerenciamento eletrônico para corrigir automaticamente pequenas variações na mistura ar-combustível, os sistemas carburados e de malha aberta operam com calibração fixa, sem capacidade de compensação.

Essa discussão encontra respaldo em um estudo experimental publicado em 2011 pelos professores Luiz Vicente Figueira de Mello Filho e Maurício Assumpção Trielli, apresentado no Simpósio Internacional de Engenharia Automotiva (SIMEA). A pesquisa avaliou motores carburados para motorização de 125 cm³ de cilindrada, operando continuamente com gasolina contendo aproximadamente 40% de etanol (E40), oferecendo uma importante referência para compreender a tendência dos efeitos provocados pelo aumento do teor de etanol em motores sem controle eletrônico da mistura.

Os ensaios de durabilidade em dinamômetro de bancada, em que as horas em funcionamento equivalem a nove mil quilômetros percorridos, mostraram que o motor abastecido com E40 apresentou redução aproximada de 8% da potência máxima, aumento superior a 11% no consumo específico, maior desgaste dos anéis de compressão, dificuldades de partida a frio, redução da marcha lenta e maior desgaste do conjunto pistão-cilindro. Também foram observados indícios de maior passagem de gases para o cárter (blow-by), indicando perda progressiva da vedação dos anéis.

Do ponto de vista técnico, esses resultados são coerentes. O etanol possui menor poder calorífico comparado à gasolina e exige maior quantidade de combustível para produzir desempenho equivalente. Como os motores carburados e sistemas de injeção de malha aberta não corrigem automaticamente essa condição, podem ocorrer alterações no consumo, desempenho e desgaste ao longo da vida útil.

Também não seria correto afirmar que a gasolina E32 produzirá efeitos similares aos observados com o E40 avaliado. Contudo, o estudo permite concluir que existe uma tendência de comportamento à medida que aumenta a participação do etanol. Assim, espera-se que a E32 produza efeitos intermediários entre a mistura E25 e a E40, principalmente em motores que permanecem com a calibração original.

Os componentes que merecem maior atenção são anéis de compressão, pistão e cilindro. O estudo também identificou alterações na coloração das velas de ignição, no padrão de combustão e aumento da massa da boia do carburador, fatores que podem influenciar o consumo e o funcionamento do motor ao longo do tempo.

Embora as motocicletas atuais utilizem predominantemente sistemas de injeção eletrônica de malha fechada, o Brasil ainda possui milhões de motocicletas carburadas e de malha aberta, especialmente até 150 cm³ de cilindrada, empregadas em entregas e deslocamentos urbanos. Nesses veículos, o aumento do teor de etanol poderá resultar em maior consumo, pequenas perdas de desempenho e eventual necessidade de recalibração do carburador, principalmente em aplicações severas.

Sob a perspectiva da inteligência de mercado, será importante acompanhar indicadores como consumo médio, frequência de manutenção, necessidade de regulagens, reclamações dos usuários e comportamento dos componentes internos dos motores. Esses dados poderão antecipar tendências de renovação da frota e gerar oportunidades para fabricantes e repositoras de autopeças.

Em síntese, a gasolina E32 é um combustível regulamentado e alinhado à estratégia de descarbonização da matriz energética brasileira. Entretanto, os resultados experimentais demonstram que o aumento da participação do etanol modifica o comportamento de motores carburados e injetados de malha aberta, influenciando consumo, desempenho e durabilidade. Para um país que ainda há milhões de motocicletas com essa tecnologia em circulação, acompanhar esses efeitos torna-se um tema estratégico para toda a cadeia produtiva voltada à mobilidade.

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assinatura luiz vicente

A Bright Consulting é uma consultoria automotiva especializada com sede em Campinas (SP), criada em 2014, e tem como missão oferecer um portfólio de serviços de inteligência competitiva orientado para minimizar os riscos relacionados ao processo decisório de seus clientes. Conta com especialistas reconhecidos nos mercados nacional e internacional, que avaliam as grandes transformações do mercado e da indústria, os impactos da evolução tecnológica nos veículos e contribuem na elaboração de projeções mais assertivas de sustentação às decisões das empresas.

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