Freio ABS em motos abaixo de 300 cilindradas

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Freio ABS em motos abaixo de 300cc:
o equipamento que salva vidas

Um estudo preliminar de pesquisadores de Engenharia de Transportes da USP e da Unicamp analisaram os sinistros com motocicletas fabricadas de 2019 a 2026 na Região Metropolitana de São Paulo, envolvidas em acidentes até agosto de 2026. A conclusão é direta: levar o freio ABS às motos pequenas poderia evitar milhares de sinistros e poupar centenas de vidas. Mas o freio é só parte da conta: a proteção do corpo do motociclista, no Brasil, ainda para no capacete.

As motos de quem trabalha concentram o risco

No período de janeiro de 2019 a agosto de 2026, segundo os dados validados com informações das motocicletas envolvidas em acidentes, foram registrados 76.498 sinistros e 95.059 pessoas envolvidas, com 2.041 mortes e 7.791 feridos graves. De cada 100 sinistros, 93 envolveram motos abaixo de 300cc, segmento que responde por cerca de 80% das vendas no país. Lideram a lista a Honda CG 160, nas versões Fan, Start e Titan, e a Pop 110i: não por serem piores, mas por serem as mais vendidas e as que mais rodam no trânsito pesado. Para entender melhor a situação, somente no ano de 2024, o SUS gastou R$ 233 milhões com internações de motociclistas.

Pelo Conselho Nacional de Trânsito, o Contran, o ABS é obrigatório nas motos acima de 300cc e em todos os automóveis. Abaixo disso, ele é opcional e a regra aceita o sistema de frenagem combinada (CBS). Ou seja: justamente as motos mais expostas são as que menos contam com o equipamento.

Os benefícios do ABS

Numa freada de emergência, o reflexo é apertar manete e pedal com força. Sem ABS, na maioria das vezes a roda trava, o pneu perde a aderência e a moto escorrega; se for a roda dianteira, a queda é quase imediata, sobretudo no asfalto molhado, com areia ou sobre uma faixa de tinta. O ABS alivia e reaplica a pressão do freio várias vezes por segundo. O CBS equilibra a força entre as rodas, mas não impede o travamento. Os ganhos são concretos quando temos os freios ABS nas motocicletas:

  • Menos quedas sem colisão. As quedas e saídas de pista mataram 884 pessoas, cerca de 5 mortes a cada 100 sinistros, contra 1,3 nas batidas entre moto e carro. É nesse tipo de ocorrência, que costuma começar com uma roda travada, que o ABS mais atua.
  • Impactos mais brandos. Quando a colisão é inevitável, a moto freia em linha reta, com direção, e chega ao obstáculo com menos velocidade, o que reduz a gravidade das lesões.
  • Segurança sem depender de técnica apurada do piloto. O sistema protege o condutor no momento do susto, quando o reflexo vence o treino, situação comum entre motociclistas novatos e no trabalho sob pressão de tempo.
  • Menos custo social. Cada internação evitada poupa recursos do SUS e meses de afastamento de quem depende da moto para sustentar a família.


Aplicando a taxa de prevenção de 29% (valor central da literatura internacional) e um efeito conservador de 15% sobre a gravidade, o estudo estima que, se todas as motos, saído de fábrica, tivessem ABS desde 2019, cerca de 809 mortes e 2.872 ferimentos graves poderiam ter sido evitados na Grande São Paulo no período (Tabela 1).

tabela 1 motos

A proteção do motociclista para no capacete

No Brasil, a única peça de proteção do motociclista com certificação compulsória é o capacete, avaliado pelo Inmetro com base na norma ABNT NBR 7471. E mesmo essa referência está desatualizada em relação à Europa, que adotou a regulamentação UNECE R22.06, com ensaios de impacto em mais pontos e velocidades, avaliação de impacto rotacional e testes de viseira e acessórios. Luvas, botas, jaquetas e calças não têm nenhuma certificação no país; na Europa, contam com normas próprias (EN 13594, EN 13634 e EN 17092) que medem resistência à abrasão, ao rasgo e ao impacto.

O contraste é evidente: a legislação trabalhista brasileira exige que o trabalhador utilize equipamentos de proteção individual (EPIs) com Certificado de Aprovação (NR-6). Para o motociclista, inclusive quem usa a moto como ferramenta de trabalho, essa exigência não existe, e o mercado vende peças sem qualquer comprovação de desempenho.

O que precisamos fazer para que os motociclistas estejam mais protegidos, independentemente da habilidade de cada um deles no trânsito:

  • Estender a obrigatoriedade do ABS às motos abaixo de 300cc, com incentivos fiscais, crédito mais barato e programas de troca de frota para entregadores.
  • Atualizar a certificação de capacetes aos requisitos da R22.06.
  • Criar certificação compulsória para luvas, botas, jaquetas e calças, tendo as normas europeias como referência, e tratá-las como EPI para quem pilota a trabalho.
  • Para quem pilota: na compra, escolha a versão com ABS; mantenha pneus e freios em dia e treine a frenagem.


Sobre o estudo:
Análise preliminar, conduzida por Gabriel Leite Elias, Luiz Vicente Figueira de Mello Filho, Lucas Gomes, Rafael Henrique de Oliveira e Yuri Alexandre Meyer. Os números de vidas poupadas são estimativas; os dados de 2025 e 2026 ainda estão incompletos, e os resultados finais serão publicados após a conclusão da pesquisa.

ASSINATURA LUIZ VICENTE

A Bright Consulting é uma consultoria automotiva especializada com sede em Campinas (SP), criada em 2014, e tem como missão oferecer um portfólio de serviços de inteligência competitiva orientado para minimizar os riscos relacionados ao processo decisório de seus clientes. Conta com especialistas reconhecidos nos mercados nacional e internacional, que avaliam as grandes transformações do mercado e da indústria, os impactos da evolução tecnológica nos veículos e contribuem na elaboração de projeções mais assertivas de sustentação às decisões das empresas.

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