Eletrificação nas duas rodas

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Eletrificação nas duas rodas:
dois vetores que vão decidir quando o elétrico ultrapassa os motores de combustão interna

O mercado brasileiro de duas rodas vive uma situação particularmente interessante. Ao mesmo tempo em que 2026 caminha para consolidar um mercado ainda fortemente sustentado pelas motocicletas de motores de combustão interna, a eletrificação apresenta uma trajetória de crescimento que começa a exigir uma leitura estratégica por parte de fabricantes, distribuidores, fornecedores, investidores e operadores de frotas.

A discussão, portanto, deixa gradualmente de ser se a eletrificação ganhará participação relevante no mercado brasileiro e passa a ser quando essa transição ganhará escala e, principalmente, como as empresas devem se posicionar antes que isso aconteça.

No primeiro semestre de 2026, as duas rodas de propulsão elétrica representaram 1,19% das vendas do segmento. Isoladamente, essa participação ainda pode parecer pequena. Entretanto, decisões estratégicas relacionadas a capacidade produtiva, desenvolvimento de produto, fornecedores, baterias, canais de distribuição e modelos de negócio precisam ser tomados anos antes de uma nova tecnologia alcançar participação dominante. É justamente nesse intervalo entre a participação atual e a consolidação futura que surgem tanto os maiores riscos quanto as melhores oportunidades competitivas.

Para avaliar essa trajetória, a Bright Consulting estruturou uma modelagem que combina diferentes instrumentos de análise estratégica. Os resultados são confrontados com mercados internacionais mais maduros, particularmente China e Índia. A modelagem é calibrada com dados efetivos de mercado e atualizada periodicamente, permitindo trabalhar com cenários, em vez de simplesmente extrapolar taxas recentes de crescimento.

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O gráfico evidencia por que uma única projeção seria insuficiente para orientar decisões estratégicas. Nos três cenários modelados pela Bright Consulting, o momento de cruzamento entre elétricos e veículos de combustão interna varia significativamente. No cenário-base, a inversão ocorre entre 2035 e 2037. Em uma trajetória conservadora, a participação elétrica permanece abaixo de 50% até 2040. Em contrapartida, um ambiente de forte aceleração regulatória, fiscal e de infraestrutura poderia antecipar esse ponto para 2031–2032.

Para uma fabricante, entretanto, a informação estratégica mais importante não é exatamente o ano em que as curvas se cruzam. É compreender quais variáveis têm capacidade de deslocar essa curva. Uma diferença de quatro, cinco ou até oito anos na velocidade da transição modifica profundamente decisões sobre capacidade industrial, localização de investimentos, portfólio, fornecedores, estoques, rede comercial e retorno esperado sobre capital.

Foram apontados dois vetores particularmente relevantes para o mercado brasileiro: autonomia efetiva das baterias e infraestrutura. E infraestrutura, nesse caso, precisa ser entendida em duas dimensões distintas: infraestrutura energética, recarga e troca de baterias, e infraestrutura urbana, associada às condições de circulação e segurança viária.

Existe aqui um aspecto especialmente relevante para a estratégia das empresas. A velocidade de eletrificação não depende exclusivamente de um salto tecnológico na química das baterias. A infraestrutura de troca rápida pode contornar comercialmente limitações de autonomia, principalmente em operações intensivas. Em vez de esperar exclusivamente por baterias capazes de oferecer simultaneamente maior autonomia, menor peso, menor custo e recarga extremamente rápida, determinados modelos de negócio podem retirar o tempo de recarga da equação operacional por meio do battery swapping.

Essa mudança é particularmente importante no mercado profissional. Motocicletas utilizadas em entregas e outras atividades de alto giro têm perfil operacional bastante diferente daquele de um consumidor que utiliza sua motocicleta para deslocamentos ocasionais. Quilometragem diária, tempo de indisponibilidade, custo energético por quilômetro, durabilidade da bateria, localização das estações de troca e custo total de propriedade passam a ser variáveis mais importantes do que simplesmente o preço de aquisição do veículo.

Há ainda uma segunda dimensão frequentemente menos incorporada às projeções comerciais: a segurança viária. O crescimento das duas rodas ocorre em um país no qual motociclistas já representam parcela expressiva das mortes no trânsito. Portanto, a expansão de motocicletas elétricas, ciclomotores, bicicletas elétricas e outros veículos leves não depende apenas da disponibilidade do produto. Depende também da capacidade das cidades de absorver esse crescimento com infraestrutura, regulamentação e fiscalização adequadas.

Por essa razão, talvez seja inadequado discutir a eletrificação das duas rodas como se todo o mercado brasileiro percorresse uma única curva de transição. A velocidade deverá ser muito diferente conforme o modo de utilização. Nas motocicletas como ferramenta de trabalho, que inclui os serviços de entregas e de aplicativos de transportes, a eletrificação encontra seu ambiente mais favorável.

No extremo oposto está o mercado de motocicletas premium, esportivas e de lazer. Para esse consumidor, a motocicleta não é apenas um meio de deslocamento: o som do motor, a vibração, a entrega de torque, as trocas de marcha e a própria interação mecânica fazem parte da experiência emocional do produto. Nesse segmento, portanto, não parece razoável assumir que a eletrificação seguirá a mesma velocidade observada nas aplicações profissionais. Os motores de combustão interna poderão permanecer relevante por um período significativamente mais longo, mesmo diante da evolução tecnológica das motocicletas elétricas.

 

ASSINATURA LUIZ VICENTE

A Bright Consulting é uma consultoria automotiva especializada com sede em Campinas (SP), criada em 2014, e tem como missão oferecer um portfólio de serviços de inteligência competitiva orientado para minimizar os riscos relacionados ao processo decisório de seus clientes. Conta com especialistas reconhecidos nos mercados nacional e internacional, que avaliam as grandes transformações do mercado e da indústria, os impactos da evolução tecnológica nos veículos e contribuem na elaboração de projeções mais assertivas de sustentação às decisões das empresas.

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